Chego à estação um minuto antes do comboio partir. O movimento do costume. Procuro o meu lugar e de passagem reparo num "feijão verde" à paisana que lê o mesmo livro que eu. Passa-me pela cabeça voltar lá mais tarde. Afinal não é todos os dias que se encontram pessoas com quem se possa falar sobre o assunto. Mas não volto. Alguns telefonemas e um lanche depois, enterro-me no banco à procura de posição para ler. Hoje vou sentada de costas para o meu destino. Consigo ver apenas topos de cabeças: alguém com uns daqueles phones enormes, cor-de-rosa bebé... uma cabeleira meia loira, a precisar de retocar as raízes e duas cabeças grisalhas. Do outro lado do corredor, de frente para mim, um homem de meia idade a precisar urgentemente de um banho! Barba até ao peito, encardida, completamente selvagem, mal se vê o nariz vermelho. O cabelo está cheio de gordas rastas naturais... recheadas nem quero saber de quê... Tivesse eu à mão uma tesoura, um par de luvas e um frasco de creolina e talvez me sentisse tentada a fazer uma boa acção. Grândola, Vila Morena. A senhora ao lado dele, com as pérolas a cairem das orelhas, não tem mais para onde fugir. Vai praticamente sentada de lado. Tem muita vontade de trocar de lugar, mas não o vai fazer. Uma garrafa de água fresca, de litro e meio, cai numa daquelas mesas para quatro e fica a rebolar de um lado para o outro. Ninguém se mexe. Vou ler... "Este mundo é uma merda", diz Watanabe. Não anda assim tão longe da verdade. 55 páginas depois reparo que o homem barbudo a precisar de um banho calça apenas uns chinelos de enfiar o dedo. Em pleno Janeiro. De resto: camisa de flanela aos quadrados, casaco de fato abotoado, calças de ganga. O que faria este homem barbudo  a precisar urgentemente de um banho no Intercidades Lisboa-Faro esta 6ª feira? Posso estar na presença do génio da Física Quântica com o pior aspecto de sempre, mas nunca saberei. Volto a embrenhar-me nas palavras de Murakami. Quando dou por mim, o homem já não está no seu lugar. Faro à vista.

(D)jango


"I like the way you die, boy". Christoph Waltz em grande, como sempre. O melhor papel de Jamie Foxx até à data. Dava uns cortes ao filme... mas tirando isso, está (quase) tudo no sítio.
As pessoas. A falta de tudo. O olhar para a frente e não ver nada. E assim se começa um novo ano...

Tradição de final de ano


Os filmes que estrearam em Portugal no cinema este ano e que eu vi (alguns não foram vistos na grande tela, infelizmente). São cada vez menos :( Os com * foram os meus preferidos, sem nenhuma ordem...

Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam As Mulheres
Warrior - Combate Entre Irmãos *
Jovem Adulta 
Cavalo de Guerra 
Vergonha *
The Hunger Games - Os Jogos da Fome 
Amigos Improváveis *
E Agora, Onde Vamos? *
Project X - Fora de Controlo 
A Fonte das Mulheres
Prometheus
Os Diários de Chernobyl 
O Fantástico Homem-Aranha
O Cavaleiro das Trevas Renasce
Brave - Indomável 
Sr. Ninguém *
007 - Operação Skyfall
Mata-os Suavemente 
O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Ponham o pé direito a jeito!
As tias estão em crise (embora já andassem na que diz respeito aos neurónios há mais tempo). Já conseguem trazer a sandes de casa no saco plástico (sem guardanapo) e comê-la, em público, no comboio. Só não conseguem deixar de tratar os filhos adolescentes por você...


13.12.12 - 08h45, Cais do Sodré. Motorista da Carris fardado dirige-se ao quiosque/café. A cena é rotineira, não há conversa. Põe uma moeda em cima do balcão. Do outro lado é-lhe dado em troca um copo de vinho tinto. A vida continua.

O regresso foi de boleia. Com um conhecido de há muito e um perfeito estranho. Ou assim pensei. Estrada quase deserta. Murakami no saco. Frio lá fora, conversa cá dentro. Viagens, trabalho, hamburgueres, outros tempos e música. Por esta ordem. E afinal o mundo continua a ser demasiado pequeno. Às vezes sou uma microscópica Amélie Poulain acidental.

Grândola. Perdi a conta ao número de quilómetros que carrego no corpo. Dou por mim a pensar nisso... Hoje não há carruagem 23. Mas os bilhetes foram vendidos como se houvesse. O revisor parece uma barata tonta a tentar encaixar toda a gente que pagou para se sentar. Nota-se que está chateado. Talvez contasse com um dia como os outros. À minha frente senta-se uma miúda demasiado vestida para quem está num sítio fechado. É daquelas pessoas que usam gorro para a neve dentro de quatro paredes... Ao meu lado, atravessando o corredor, um rapaz que lê um livro de bolso com letras pequeninas. Ao mesmo tempo, vai trincando um Kit Kat. O tempo demora a passar. Fico com fome e saco do meu lanche: tarte de maçã e iogurte banana/morango. Lembro-me de como não gosto de iogurtes de banana. Iogurtes de gajo, costumo dizer. Os de coco também, já agora. Mas com morango já vai... Uma senhora conta aos companheiros de viagem que já foi à Croácia, a "Zabreg"! Viajo mentalmente até lá. Messines. Do Kit Kat o rapaz passa para um pacote de batatas fritas. E eu farta de cá estar. Uma senhora descuida-se ao tirar uma mala da prateleira superior e mostra a barriga, revelando um umbigo simplesmente horrível... De volta a Murakami. Li, ao todo, oitenta e cinco páginas. Olho pela janela e o céu é diferente. Tem mais cores. Cheguei.